História da separação do Supremo Conselho do grau 33 para o R.E.A.A. no BraSIL
Publicado originalmente em 28 de fevereiro de 2021
Publicado originalmente em 28 de fevereiro de 2021
Antes, é necessário compreender um pouco sobre um dos principais personagens — senão o principal — deste episódio: Mário Marinho de Carvalho “Behring”, também conhecido como Mário Behring.
Sua trajetória, neste contexto, inicia-se nas eleições de 1921, realizadas em razão do falecimento do Grão-Mestre Adjunto Luís Soares Horta Barbosa. Surgiram então dois candidatos:
Mário Marinho de Carvalho “Behring”, apoiado por uma tênue maioria que detinha o poder no Grande Oriente do Brasil;
General José Maria Moreira Guimarães, apoiado por São Paulo, estado que contava com grande número de membros vinculados.
Resultado: a junta apuradora do GOB anulou diversos votos — sendo a maior parte deles do General Moreira Guimarães — e, dessa forma, Mário Behring foi declarado vencedor, assumindo a gestão do GOB no período de 1922 a 1925.
Alguns historiadores, como William Almeida de Carvalho, relatam que houve manipulação nesse processo eleitoral, favorecendo o vencedor.
Em seguida, chegamos às eleições de 1925 para o GOB. Mário Behring, então concorrendo à reeleição, encontrava-se licenciado. Ao perceber o risco de derrota, reassumiu o Grão-Mestrado Geral em 23 de junho de 1925 e venceu um pleito posteriormente apontado como fraudulento por diversos historiadores. A Assembleia Geral do GOB, em sessão extraordinária, reconheceu a fraude.
Então, foram decretadas novas Eleições. Neste momento, em 13 de julho daquele ano, Behring renunciou ao cargo de Grão-Mestre Geral, mas permaneceu como candidato à reeleição.
Realizadas novas eleições no final de 1925, com o intuito de corrigir as irregularidades, desta forma:
Vicente Saraiva de Carvalho Neiva que obteve 3.179 votos válidos, enquanto;
Mário Behring recebeu apenas 317.
Esta derrota esmagadora funcionou como um julgamento da gestão anterior.
Apesar da derrota no GOB, Behring manteve-se como Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do REAA. Tal acúmulo de poder contrariava a constituição da época, que previa que o Grão-Mestre do GOB deveria chefiar ambas as estruturas, dada a natureza mista da Obediência.
De acordo com registros históricos, a derrota de Behring nessas eleições teria sido o estopim para a cisão que ocorreria em 1927, por ele próprio promovida.
A Constituição e Decretos do GOB de 1907 previa que o Grão-Mestre do Simbolismo também era o Soberano Comendador do Supremo Conselho do grau 33 para o R.E.A.A. no Brasil, portanto uma era uma Potência mista, sendo este fato aceito pelos Congressos Maçônicos Internacionais em 1907, 1912 e 1922.
Em 1854, por iniciativa do Conde de Caxias (Luís Alves de Lima e Silva), ocorreu a fusão entre o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e o Grande Oriente do Brasil (GOB). Na ocasião, Caxias tornou-se Grão-Mestre Honorário do GOB, seguindo a tradição iniciada por José Bento da Silva Lisboa (Barão de Cairu).
Assim, o Grão-Mestre Geral do GOB passou a acumular também o cargo de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do REAA no Brasil. Essa união permaneceu constitucionalmente prevista até 1951, quando a nova Constituição do GOB (Decreto nº 1.941, de 23 de maio de 1951) separou as duas Potências, tornando o GOB uma obediência estritamente simbólica.
Prevendo a perda de controle sobre o GOB, Behring iniciou os preparativos para a separação ainda em 1925, ano que perdeu as eleições. Para tanto, em 2 de novembro de 1925, ele registrou novos estatutos próprios para o Supremo Conselho, ignorando que a Legislação já estabelecia no GOB como a única entidade detentora legal de tal estrutura.
Embora juridicamente nulo naquele momento, esse registro foi a ferramenta estratégica utilizada posteriormente para fundamentar a independência do Supremo Conselho, que veremos a seguir.
Diante do caos deixado por Behring, Octavio Kelly finalmente assumiu a direção do GOB. Eleito e empossado em 21 de março de 1927, tinha a missão quase impossível: recompor os estragos.
Mas Behring já tinha seus planos. No dia 17 de junho de 1927 — aniversário do GOB — ele agiu às escondidas, fora da sede tradicional do Lavradio. Reuniu apenas 13 membros efetivos do Supremo Conselho (de um total de 33!) em assembleia extraordinária e declarou a separação total do Grande Oriente.
Antes disso, não esqueceu o golpe baixo: levou todos os arquivos e documentos do Supremo Conselho, transferindo-os para endereço desconhecido. Um ato considerado delito maçônico, já que aqueles papéis pertenciam à Instituição, não a ele.
Behring alegou as eleições do Supremo Conselho desde 1921 e a necessidade de revisar o tratado entre as duas Potências. Como suas demandas por reforma constitucional foram ignoradas, aqueles 13 membros "deliberaram por unanimidade" denunciar à Confederação Internacional do Rito tanto a união com o GOB quanto o tratado de 1926.
E terminou com o golpe final: "O Supremo Conselho se desliga do Grande Oriente".
Os dirigentes do GOB não perceberam a gravidade. Pediram uma "união próxima", sem entender que o golpe mortal já havia sido desferido.
Behring justificou a ruptura alegando a necessidade de cumprir as resoluções da Conferência de Lausanne (1922) e a falta de reformas constitucionais no GOB. O Supremo Conselho decidiu, de forma unilateral, denunciar o tratado de união de 1926 e desligar-se do Conselho da Ordem. Inicialmente, a manobra foi apresentada como uma separação administrativa entre Altos Graus e Simbolismo, escondendo a intenção de uma cisão completa.
Afirmou que o Supremo Conselho vinha exigindo reforma constitucional sem sucesso. Por isso, no dia 17 de junho, aqueles 13 membros "deliberaram" denunciar à Confederação Internacional do Rito tanto a união com o GOB quanto o tratado de 1926.
Para sustentar sua nova estrutura, Behring criou as Grandes Lojas estaduais para abrigar os graus simbólicos.
Behring, no entanto, já havia preparado essa cisão, criando uma base simbólica para o seu Supremo Conselho por meio das Grandes Lojas estaduais. A primeira delas, a da Bahia, foi fundada em 22 de maio de 1927 e recebeu do Supremo Conselho a Carta Constitutiva nº 1. Pouco depois da ruptura, surgiram também as Grandes Lojas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
A partir de então, a Maçonaria brasileira entrou em um processo de declínio, deixando de ser um grupo de elite estratégica para se tornar um conjunto mais convencional, de classe média, como tantos outros existentes no Brasil. A Revolução de 1930 aprofundou ainda mais essa característica, que perdura até os dias atuais — embora o crescimento do GOB em ritmo acelerado possa, no futuro, provocar uma mudança qualitativa.
Em 3 de agosto de 1927, Behring e seus seguidores divulgaram um manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil e um decreto que se tornou famoso pela atitude inusitada envolvida: declaravam oficialmente o Grande Oriente como potência irregular no seio da Maçonaria Universal. O estranho era justamente esse: uma obediência dos Altos Graus escoceses declarar irregular uma obediência simbólica.
Ainda assim, desde que promoveu a cisão, Behring não deixou de cortejar a Grande Loja Unida da Inglaterra, na tentativa de obter o reconhecimento de suas Grandes Lojas, o que lhes daria a tradicional regularidade conferida pela Obediência Mater. Nada conseguiu por suas tentativas, pois a Grande Loja Unida da Inglaterra sempre reconheceu o GOB como seu parceiro no Brasil.
Foi então estabelecido este novo Supremo Conselho do REAA, sendo dirigido por Mário Behring com este novo nome: Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil.
Este possui a seguinte logomarca:
Seu portal pode ser acessado pela URL: https://sc33.org.br/
Também é conhecido como o Supremo Conselho de Jacarepaguá, por motivo de sua sede ser nesta localidade no Rio de Janeiro.
Esporadicamente, este é chamado de "Supremo Conselho das Grandes Lojas", referindo-se a sua história próxima das Grande Lojas no ano da Cisão de 1927.
Como o Supremo Conselho do Grau 33 não tinha sido separado pelos Deputados Federais do GOB, então este não teria saído do Simbolismo.
Com este entendimento, Octávio Kelly, Grão-Mestre Geral, precisava dos documentas básicos do Supremo Conselho do REAA, as estes tinham sido subtraídos por Mário Behring. Depois de muitas tratativas e ações os resgatou em agosto de 1927.
Portanto, apenas tinham se passado algo em torno de 2 (dois) meses até a reconstituição do Supremo Conselhor do Grau 33 ainda vinculado ao GOB, como previa sua Constituição (do GOB).
Neste mesmo mês, houveram eleições para os novos membros efetivos do Supremo Conselho do REAA, a fim de ocupar a vacância pelos dissidentes. Era, então, reconstituído o Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o REAA, ainda com vinculação mista do GOB (O Grão-Mestre dirigia o simbolismo e o Supremo Conselho, conforme Constituição de 1907).
Este possui a seguinte logomarca:
Seu portal pode ser acessado pela URL: https://supremoconselho.com.br/
Também é conhecido como o Supremo Conselho de São Cristóvão, por motivo de sua sede ser nesta localidade no Rio de Janeiro.
Esporadicamente, este é chamado de "Supremo Conselho do GOB", referindo-se ao seu funcionamento integrado/misto, que ocorreu entre os anos de 1854 e 1951.
Pela nova Constituição de 1951 do Grande Oriente do Brasil, sancionada pelo decreto nº 1.941 de 23 de maio de 1951, o Grande Oriente do Brasil voltou a ser uma Potência/Obediência estritamente simbólica e separada deste Supremo Conselho.
Agora, sim, havia a autorização formal, obedecendo o devido processo Legal, da separação do Supremo Conselho do Grau 33 do Simbolismo.
Ocorreu em 1929, em Paris, França, a 4ª Conferência Internacional de Supremos Conselhos do REAA.
Mário Behring se antecipou e conseguiu que a delegação advinda do Palácio do Lavradio não pudesse entrar no referido Congresso, com a justificativa que tinha sido criada seria a legítima e única, sendo reconhecida conforme preconizou.
a) Segundo o artigo 8º das Resoluções do Congresso de Lausanne de 1875, no qual determina que nos casos de cisão de um Supremo Conselho, esta questão deveria ser levada à decisão de um Tribunal de Membros ativos de cinco Supremos Conselhos Confederados e, depois, ao plenário da Confederação, na próxima assembleia confederada internacional. Mas, isto não ocorreu. Talvez tivesse sido mais justo se tivesse ocorrido e ouvido ambas as partes, ter havido a ampla e justa defesa.
b) Outra consideração, é relativo ao modus operandi como tudo ocorreu (já exposto neste artigo). Particularmente, acredito que não reinou o espírito maçônico nesta empreitada.
c) O Supremo Conselho reconstituído pelo GOB (Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito) defende ter sido uma cisão, já que a Constituição de 1907 não permitia esta separação sem a aprovação da Assembleia Geral, além do modo como tudo aconteceu e a quantidade de membros efetivos participaram da decisão (13 dos 33). Apenas através da Constituição de 1951, sancionada pelo decreto nº 1.941 de 23 de maio de 1951, que o Grande Oriente do Brasil reconhece a separação definitiva entre o simbolismo e o Supremo Conselho.
Já o Supremo Conselho resultante (Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil) considera que o que houve foi apenas uma separação do simbolismo e que ele deteria a originalidade de criação.
É um problema que existe até os dias de hoje, infelizmente.
Antes, precisamos entender que fica no Estados Unidos o chamado: "Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos Estados Unidos", autodenominado "Mother Supreme Council of the World" (Supremo Conselho Mãe do Mundo).
Seu portal (Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos Estados Unidos) pode ser acessado pela URL: "https://scottishrite.org/"
No Brasil, o Supremo Conselho resultante, de Jacarepaguá/RJ, conforme já descrito neste artigo, o "Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil", é o que integra o Grupo dos 54 (cinquenta e quatro) Supremos Conselhos reconhecidos pelo Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos Estados Unidos no mundo. (Portal https://sc33.org.br/)
Já o Supremo Conselho restituído, de São Cristóvão/RJ, conforme já descrito neste artigo, o "Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito", possui, desde a data de 24 de setembro de 2014, seu reconhecimento internacional através de tratado com o "Supremo Conselho do Grau 33 para Inglaterra e País de Gales e seus Distritos e Capítulos além-mar". (Portal https://supremoconselho.com.br/ ou https://www.ritoescoces.org.br/)
Apesar dos entraves ocorridos na história envolvida com o Supremo Conselho aqui no Brasil, a Maçonaria é universal e deve prosseguir seguindo seus preceitos com Temperança, Fortaleza, Prudência, Justiça, Fé, Esperança e Caridade.
Paz e bem a todos!
Aldemari Gomes Borges
Membro da A∴R∴L∴S∴ Barão de Mauá n° 4399, Oriente de Brasília/DF.
Grande Inspetor Geral (Gr∴ 33) pelo Supremo Conselho do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito - Mãe dos Graus Filosóficos Escoceces no Brasil.
Pequena história da MAÇONARIA no Brasil. William Almeida de Carvalho. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/3268636.pdf>. Acessado em: 28 de fevereiro de 2021.
Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito. Disponível em: <https://supremoconselho.com.br/>. Acesso em 28 de fevereiro de 2021.
Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil. Disponível em: <https://sc33.org.br/>. Acessado em 28 de fevereiro de 2021.
Supremo Conselho. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Supremo_Conselho>. Acesso em 28 de fevereiro de 2021.
A RAIZ DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO NO TERRITÓRIO BRASILEIRO. Antonio Carlos Barbosa Ramos Junior. Disponível em: <https://www.ritoescoces.org.br/pdf/a_raiz_do_reaa.pdf>. Acessado em 28 de fevereiro de 2021.
Grandes Constituições de 1786. Supremo Conselho para Portugal. Disponível em <http://www.supremoconselho.org/o-supremo-conselho/?idConteudo=3> . Acessado em 28 de fevereiro de 2021.
História da Cisão de 1927 (Criação da GLMESP). Heitor Genta. Disponível em <https://bibliot3ca.com/historia-da-cisao-de-1927-criacao-da-glmesp/> . Acessado em 28 de fevereiro de 2021.